Todo mundo está usando IA para escrever edital cultural. E a maioria continua reprovando.
Existe um padrão que se repete em todo o Brasil toda vez que um edital cultural abre. O artista vê o prazo, reconhece que a sua ideia se encaixa, abre o regulamento, lê os primeiros campos e trava. Isso acontece porque falta tradução entre preparo artístico e preparo para escrita de projeto. São dois mundos que falam línguas completamente diferentes.
O mundo da arte forma profissionais para criar. O conservatório, a escola de teatro, o curso de dança ensinam técnica, repertório, processo criativo. Não ensinam o que escrever no campo "justificativa cultural" de um edital da PNAB, nem como calcular "contrapartida social", nem por que a "aderência ao eixo temático" vale mais pontos que a qualidade artística declarada na apresentação.
Esse vocabulário não existe em lugar nenhum que o artista costuma frequentar. Está nos regulamentos, nas notas técnicas das secretarias de cultura, nos comentários de pareceristas que quase nunca são tornados públicos. Quem aprende é quem pagou consultor suficiente, trabalhou dentro de instituto cultural com estrutura, ou errou edital suficiente para decifrar o padrão sozinho.
A consequência prática é que o sistema de editais, construído por gestores públicos, beneficia estruturalmente quem conhece a linguagem da gestão pública. Não quem tem o melhor projeto. Quem sabe traduzir o projeto para o formulário.
Um espetáculo de teatro que levou dois anos para ser criado perde para um projeto menor escrito por alguém que conhece o vocabulário do avaliador. O parecerista avalia o que está escrito no formulário, não o que existe na cabeça do artista.
E a saída que a maioria encontra não resolve o problema de raiz. Pedir ajuda no grupo de WhatsApp depende de quem está online, de quanto essa pessoa conhece o regulamento daquele edital específico e de ela ter tempo para responder antes do prazo fechar.
Com o crescimento das IAs, a maioria tem usado o ChatGPT para escrever os campos. O texto volta bem escrito em português, mas sem aderência ao vocabulário do edital: usa expressões como "impacto cultural positivo" e "fortalecer o ecossistema artístico" que não correspondem a nenhum critério de pontuação do regulamento. O parecerista avalia critério por critério, com nota. Se o texto não espelha a linguagem do critério, o projeto perde ponto, independente de ter boa gramática.
No final, o resultado é o mesmo: artistas com projetos bons que ficam de fora de editais feitos para eles. E editais que encerram com menos inscrições do que o previsto porque os recursos existem, os produtores existem, mas o gap de linguagem entre os dois não foi resolvido.